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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Em época de mentiras...

...algumas verdades alimentam o espírito.

Tu que és da direção das massas investido,
tu que vingas o crime e que o povo defendes,
e executas a lei penal, e do bandido
no topo de uma forca, o cadáver suspendes;

Tu que tens o canhão, a tropa, a artilharia,
tu mesmo és quem fuzila a inerme poupulaça;
incurso está também no código e devia
pra ti também se erguer uma fôrca na praça!


Ao poder público, Raimundo Correia (1 de janeiro de 1880)

sábado, 28 de agosto de 2010

Trovão


Não há filtros agora.
O som é uma existência
o som existe como eu
existe para dentro de mim
pelo ouvido até o centro
do centro para as extremidades.
Como o lago reagindo ao golpe
para voltar à serenidade.
Nesse momento meu papel no mundo
se desfaz
a sombra se pôs.
Ao mesmo tempo sou mais parte do mundo
como a raiz,
que não se vê.

GUSTAVO.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

FP




Pequeno é o espaço que de nós separa
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será então
Aquele que hoje somos.

Só o passado, a ele e a nós comum,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
Histórias esquecidas

Se pudéssemos pôr o pensamento
Com exata visão adentro à vida
Que havemos de ter naquela hora,
Estranhos olharíamos

O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
Perdida antes de a termos.

Fernando Pessoa 31/1/1922

terça-feira, 27 de julho de 2010

Piva

"Sou uma metralhadora em estado de graça", disse ele, o poeta, bruxo, louco, Roberto Piva. Se foi faz pouco, estremecendo a passagem de nosso mundo para o outro.


Praça da República dos meus sonhos

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

Roberto Piva

terça-feira, 1 de junho de 2010

dúvida
rainha do mar
governa sonhos e solidões
prende-me a desejos e trovões
.
flerto contigo
insensatez
cada impulso maldito
de lamber tua tez
.
GUSTAVO

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Encontro

Claude Monet, The Beach at Trouville

Edward Hopper, Theater


Os melhores encontros são aqueles que não esperamos.
Os melhores encontros são aqueles em que não estamos esperando tanto da vida.
São aqueles em que o inesperado é maravilhoso.
Os melhores encontros são aqueles em que nos encontramos com nós mesmos.

sábado, 3 de abril de 2010



A saudade é um sentimento universal, não tem cura.
Só derramo longos ventos
de pensar o que passou.
Quem me dera uma vez
vetar estes versos sem surpresa.

segunda-feira, 15 de março de 2010

o único amor possível

Amor liberdade:
o que é agora vai deixar de ser um dia. Consigo amar o agora.

Amor apego:
querer que fosse como era. Rejeito o agora.

Meu pai não gosta de como as coisas são agora. Ele não entende na época dele, as coisas apenas eram diferentes das da época do pai dele. Agora, são diferentes da época dele. Depois, serão diferentes da minha época. A vida termina para a vida continuar.

sexta-feira, 12 de março de 2010

olhar brasileiro



Olha pra mim uma mulher e pergunta
No seu olhar, um lugar
Não um lugar sabido, mas desconhecido
O olhar de um lugar perdido
sem esperar ir para lugar nenhum
Um lugar que não espera nada da vida
No olhar brasileiro, a desolação
de ser sugado e ser feliz
No olhar brasileiro, a malícia
de sugar o outro e rir
De qualquer forma, todos somos vencidos
pelo peso de viver

quinta-feira, 11 de março de 2010

estofo

E se uma furadeira furasse meu pensamento?
Assim como uma almofada.
Será que algo vazaria dele?
O que tem dentro do pensamento, que faz dele pensamento?
Silicone, isopor ou espuma?
Guardaria a ferramenta e sentiria a sensação
de ser sustentado pelo vazio.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Soneto do amor total


(...)

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hilst

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Entre o saber e o foder


























Meus pensamentos vagem
entre os números da matemática
e os pentelhos da buceta.

Minhas mãos lançam mão
de notas acadêmicas
e gemidos tropicais.

Suar. Suar, talvez gozar.

Penetrar com meu corpo
(precisão científica)
e ser recebido com prazer.

A vida de mil e uma faces,
âmbitos do saber
recôncavos e piças a estremecer.

Homenagem à Hilda Hilst.

domingo, 15 de novembro de 2009

Dedicação





























Este poema é dedicado
aos que em grande dedicação
e coragem
assumiram a arte em si
e admitiram entrar em contato
com sua loucura.

Abre-se a janela
e voa-se com o vento.
GUSTAVO.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

in-esperado
















quem diria, quem diria
saí caminhando sozinho
e encontrei na esquina
um pouco de poesia.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

quanto tempo?

fico ali
parado perdido
levado por um som,
imagem ou ação
até retomar
a direção.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

segunda-feira teia

bolhas de sabão
que nunca consigo pegar
e nunca explodem.
como a aranha trabalhando dia e noite
repito o trajeto várias vezes
mas acabo preso em minha teia.
um degrau faltando termina a escada
sem força para inventar o suporte
do passo criativo na caminhada.
depois de muito suor
melhor mesmo é relaxar
e deixar as moscas pousarem em mim.

GUSTAVO.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009



tempo desgarrado
ventos desgraçados
sopram luas
varrem ruas.
caldos tortos
braços retos
olhos frágeis
coração partido.
amargo é o som
da devastação.
nuvens fracas
ecos de aspectos
passados.

GUSTAVO.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

vai pagar quanto?


dinheiro
não compra felicidade
mas suborna o prazer.
dinheiro
disfarça a feiúra
mas não aumenta o pau.
dinheiro
constrange a pobreza
humilha a fome
mas não compra alma.
dinheiro
não tem cpf
nem comprova residência
mas tem endereço certo.
dinheiro
suborna e mata
mas não confere vida.
dinheiro
te leva aonde quiser
mas não te traz felicidade.

GUSTAVO.


Dedicado aos nascimentos artísticos!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009