sábado, 17 de outubro de 2009

ação
























A guerra em mim.
Desejo de destruir.
Fome de miséria,
de terra arrasada.
Tudo de destrutivo
que habita o noticiário
e o mundo
habita também
o coração.


"a guerra, crianças,
está a um tiro de distância"

Gimme Shelter, de Mick jagger e Keith Richards.


"somos ilhas uns para os outros
construindo pontes esperançosas
em um mar agitado"

Entre Nous, de Neil Peart

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

















Quando perguntaram a Joshu o que era o Tao (ou a verdade do zen) ele respondeu: "A vossa vida cotidiana é o tao". Em outras palavras, uma calma autoconfiante. Esta é a verdade que quero exprimir quando afirmo que o zen é eminentemente prático. Ele apela diretamente à vida, não fazendo sequer referência à alma, ou a deus, ou a coisa alguma que interfira ou perturbe o ordinário curso vital. A idéia do zen é de captar a vida assim como ela é. Não há nada de misterioso e extraordinário a respeito do zen. Ergo a minha mão, ou apanho um livro do outro lado da mesa, ou ouço os garotos jogando bola na rua, ou vejo as nuvens além serem dispersadas sobre a floresta - em tudo isso estou praticando o zen. Estou vivendo o zen. Nenhuma discussão verbal é necessária, nem qualquer explicação. Não sei porque, e também não há necessidade de explicação, mas quando o sol surge, todo o mundo dança de alegria, e o coração de todos enche-se de júbilo. Se o zen é depois de tudo concebível, é aqui que deve ser apreendido.

Daisetz Teitaro Suzuki, em Introdução ao zen-budismo

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

segunda-feira teia

bolhas de sabão
que nunca consigo pegar
e nunca explodem.
como a aranha trabalhando dia e noite
repito o trajeto várias vezes
mas acabo preso em minha teia.
um degrau faltando termina a escada
sem força para inventar o suporte
do passo criativo na caminhada.
depois de muito suor
melhor mesmo é relaxar
e deixar as moscas pousarem em mim.

GUSTAVO.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Fita amarela
























Quero que o sol não invada o meu caixão
Para minha pobre alma não morrer de insolação

Fico contente, consolado de saber
Que as morenas tão formosas
A terra um dia há de comer

Não tenho herdeiros, não possui um só vintém
Eu vivi devendo a todos, mas não paguei ninguém

Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela, gravada com o nome dela
Não quero flores, nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho

Noel Rosa, Fita amarela (composta em 1932)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Foto


Uma foto revela mais que uma paisagem: revela um olhar.
Pode ser um olhar de curiosidade, deleite, ou de satisfação com o que se vê.
Esta foto de Laura Backes tirada no interior da Croácia atiça minha curiosidade. De onde são essas escadarias? Quem vive ou frequenta esse lugar? Aonde essa passagem leva?
Não há nada de espetacular: há um cotidiano.
Um cotidiano qualquer, que como quase qualquer coisa, pode ser capturada artisticamente.
Algo nada espetacula que se transforma em algo lindo.

Laura Backes é atriz e dançarina. Ah, fotógrafa também.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009



tempo desgarrado
ventos desgraçados
sopram luas
varrem ruas.
caldos tortos
braços retos
olhos frágeis
coração partido.
amargo é o som
da devastação.
nuvens fracas
ecos de aspectos
passados.

GUSTAVO.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tim Maia




Assisti nesse findi o dvd Tim Maia in concert, show ao vivo do síndico cantando muitos sucessos. Fiquei impressionado vendo Tim ao vivo (mais tempo do que apenas num clipe) pela quantidade de energia daquele homem. Não a energia dos "aditivos" (que nunca saberemos quanto ele aguentava), mas a energia criativa dele.
Apenas ouvindo sua voz, chama a atenção seu timbre e afinação, coisa que toma por inteiro muitos cantores. Não para o Tim. Parece que cantar era pouco pra ele. Não apenas cantava com sua voz marcante, como estava, ao mesmo tempo, regendo Vitória Régia (sua banda), se comunicando com o público, comentando a música, reclamando do volume dos instrumentos, tudo num clima de ensaio/brincadeira num nível de alto profissionalismo (quando ele subia no palco).
Vale a pena para quem quiser conferir a fera se divertindo como criança. Valeu a dica do Edu!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Através de um espelho


Assisti finalmente um filme do tão comentado Bergman, Através de um espelho (1961). Tudo tem uma primeira vez. Me apaixonei pela fotografia, e não achei tão pesado como comentam. Me explico melhor: achei forte sim, pela veracidade da trama, mas senti que ele apresenta possibilidades, pincela por possibilidades, mesmo que a realidade se mantenha dura, sintuosa em vários momentos. Mesmo assim, o arrepio provocado pela veracidade, cruel como é retratada pelo diretor, fascina pela maestria de sua captura.
O tema principal é a loucura e a falta de conexão com Deus. A loucura é mostrada no filme com seu aspecto terrível, que desestrutura a pessoa e a família, e o transtorno de perder contato com a realidade. Ao mesmo tempo, é preciso um pouco de loucura para conceber com tanta habilidade um filme complexo como esse, ou para atuar tão bem como atuam os atores. Na verdade, é preciso contato com a loucura para qualquer forma de arte, não?
Da mesma maneira, quando pai e filho conversam na cena final sobre o vazio da existência, eles entendem um pouco a loucura da vida, já que "tudo pode acontecer". Vivemos num mundo onde tudo é capaz de acontecer, e estamos todos sentenciados à morte, mais cedo ou mais tarde, e nesse vazio, nesse mesmo vazio da existência, encontramos amor. Nesse mundo encontramos amor.
Quem sabe a loucura não está para nós, assim como estamos para Deus?