segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tempo para esvaziar

Em relação ao post anterior, Janelas de ontem e hoje, é incrível como hoje temos informações à disposição, e não temos tempo. A corrente sempre nos leva para encher, encher, encher, e cada vez menos temos algum tempo para esvaziar.
Pensar nisso me trouxe um bem-estar em relação a este blog, que passei a ver sob essa nova perspectiva: um lugar para esvaziar um pouco. Um lugar sem tantos verbos no imperativo (compre, ganhe, leve, pague), e adjetivos menos falsos.
É profunda a sensação de vazio ao ver como transformamos mais e mais as coisas em produtos. Informação, lazer, status. Cada vez menos atenção para o que há em mim, e mais para o que estou produzindo, e consumindo dos produtos alheios.
Nas épocas de inflação, estocávamos comida em casa. Agora, nem isso. Consumimos e descartamos na mesma velocidade. Quem dera deixar isso um pouco de lado, e aproveitar a brisa de uma janela aberta.

GUSTAVO.

Janelas de ontem e hoje





Os velhinhos de ontemcostumavam, sobretudo nos fins de tarde, abrir as janelasdas casas e ficar ali, às vezes com os cotovelos apoiados em almofadas, esperando que algo acontecesse: a aproximação de um conhecido, uma correria de crianças, um cumprimento, uma conversa, o pôr do sol, a aparição da lua.
Eles se espantariam com as crianças e os jovens de hoje, fechados nos quartos, que ligam o computador, abrem asjanelas da internet e navegam por horas por um mundo de imagens, palavras e formas quase infinitas.
O homem continua sendo um bicho muito curioso. O mundo segue intrigando-o.
O que ninguém sabe é se o mundo está cada vez maior ou menor. O que imagino é que, de suas janelas, os velhinhos viam muito pouca coisa, mas pensavam muito sobre cada uma delas. Tinham tempo para recolher as informações mínimas da vida e matutar sobre elas. Já quem fica nasjanelas da internet vê coisas demais, e passa de uma para outra quase sem se inteirar plenamente do que está vendo. Mudou o tempo interior do homem, mudou seu jeito de olhar, Mudaram as janelas para o mundo e nós seguimos olhando, olhando, olhando sem parar, sempre com aquela sensação de que não podemos parar de olhar, seja o cachorro de verdade que se coça na esquina da padaria, seja o passeio virtual por Marte, na tela colorida.

Cristiano Calógeras

domingo, 15 de novembro de 2009

Dedicação





























Este poema é dedicado
aos que em grande dedicação
e coragem
assumiram a arte em si
e admitiram entrar em contato
com sua loucura.

Abre-se a janela
e voa-se com o vento.
GUSTAVO.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

















Nesse mundo
há outro mundo
onde as coisas
são mais simples.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Onde vivemos

Homem pirata

A História é dividida tradicionalmente em Idade Antiga, Média, Moderna e Contemporânea. Estavam querendo chamar o século XX de 'Idade da Tecnologia'. Se assim fosse, hoje podemos estar vivendo a 'Idade da Pirataria'.
Deus fez o homem, e o homem fez o mp3. Depois disso, nada foi o mesmo.
A pirataria tecnológica começou com a música, álbuns inteiros na internet, e depois filmes, programas de televisão, livros e por aí a fora. Além dos tradicionais produtos "made in taiwan", temos agora "made in china". Temos antenas de tv que captam sinais da televisão fechada (um sucesso!). Temos bolsas pirateadas, sapatos, roupas, remédios, e até mesmo camisinha (itens falsificados, o que dá no mesmo que pirataria).
Acho que a pirataria se estendeu mais, de outras formas. Por exemplo: quando começou a internet, os jornais limitavam o acesso ao seu conteúdo online aos assinantes. Como as pessoas passaram a ler mais no computador do que fora dele (e começaram a colocar revistas na rede), hoje todos os jornais colocam seu conteúdo online, e não apenas isso, competem em conteúdo online: além de notícias atualizadas minuto a minuto, dezenas de blogs dos seus comentaristas, e tudo atualizado por feeds (resumos da notícia que o jornal envia a quem quiser, com a possibilidade de acessar o site para ler a notícia completa). Tudo isso pra quê? Ter mais acessos no site para valorizar os seus anúncios online.
Agora, o ser humano decidiu piratear a si mesmo, fazendo robôs-humanos. A moda já vinha do sexo: na internet, sexo virtual, no mundo real, pênis mecânicos, vaginas de silicone e mesmo bonecos inteiros feitos sob medida para o deleite sexual dos usuários pelo preço de um carro popular. Nos cinemas, o filme 'Os Substitutos' propõe uma interessante discussão sobre o tema. Até que ponto toda essa tecnologia não é uma nova forma de fuga de nossos sentimentos e atitudes?

GUSTAVO.

Sobre a robo:

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

in-esperado
















quem diria, quem diria
saí caminhando sozinho
e encontrei na esquina
um pouco de poesia.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A origem do mundo

A guerra civil da Espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão. Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. Contou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso, não entendia.
- Mas papai - disse Josep, chorando -, se Deus não existe, quem fez o mundo?
- Bobo - disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando. - Bobo. Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.

Eduardo Galeano, em O livro dos abraços.

quanto tempo?

fico ali
parado perdido
levado por um som,
imagem ou ação
até retomar
a direção.