quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Na boiada já fui boi


Em 1966 Jair Rodrigues, cantando Disparada (de Geraldo Vandré e Théo de Barros), empatou em primeiro lugar no II Festival da Música Popular da TV Record com A Banda, de Chico Buarque.

Uma das partes mais emocionantes do vídeo é o olhar do policial (ou militar) para o músico, que declama bravamente os versos:

"Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
mas com gente é diferente..."

Lembrando que eu 1966, o Brasil vivia um momento em que a ditadura já estava instalada, e começando a endurecer. A sociedade já sentia a repressão, mas nem sabia o que viria pela frente.



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

FP




Pequeno é o espaço que de nós separa
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será então
Aquele que hoje somos.

Só o passado, a ele e a nós comum,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
Histórias esquecidas

Se pudéssemos pôr o pensamento
Com exata visão adentro à vida
Que havemos de ter naquela hora,
Estranhos olharíamos

O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
Perdida antes de a termos.

Fernando Pessoa 31/1/1922

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Censura 2010


Sabe-se que o humor é um meio de distanciamento crítico e de tornar explícitos temas que estão sendo tratados como pano de fundo (ou que estão sendo abafados pela seriedade mórbida e anestésica). Mais do que isso, o humor desperta o interesse e fomenta o debate.

Mas não é o que vai acontecer nas eleições desse ano, pois o humor está banido. Os meios de comunicação estão proibidos de fazer humor com os candidatos. É uma censura, um retrocesso histórico, e uma maneira equivocada (no mínimo) de tentar aumentar o nível do debate político.






Se pensam que a população não é capaz de decidir por si mesma em quem votar, ou que é com humor que se compram votos nesse país, estão equivocados.



terça-feira, 27 de julho de 2010

Piva

"Sou uma metralhadora em estado de graça", disse ele, o poeta, bruxo, louco, Roberto Piva. Se foi faz pouco, estremecendo a passagem de nosso mundo para o outro.


Praça da República dos meus sonhos

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

Roberto Piva

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Consumo x Ambiente

Vários estudos têm alertado que tanto a população da Terra quanto seus níveis de consumo crescem mais rapidamente do que a capacidade de regeneração dos sistemas naturais. Um dos mais recentes, o relatório Planeta Vivo, elaborado pela ONG internacional WWF, estima que atualmente três quartos da população mundial vivem em países que consomem mais recursos do que conseguem repor.

Só Estados Unidos e China consomem, cada um, 21% dos recursos naturais do planeta. Até 1960, a maior parte dos países vivia dentro de seus limites ecológicos. Em poucas décadas do atual modelo de produção e consumo, a humanidade exauriu 60% da água disponível e dizimou um terço das espécies vivas do planeta.

"O argumento de que o crescimento econômico é a solução já não basta. Não há recursos naturais para suportar o crescimento constante. A Terra é finita e a economia clássica sempre ignorou essa verdade elementar", afirma o ecoeconomista Hugo Penteado, autor do livro Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem.

Para a Ecoeconomia, é preciso parar de crescer em níveis exponenciais e reproduzir - ou "biomimetizar" - os ciclos da natureza: para ser sustentável, a economia deve caminhar para ser cada vez mais parecida com os processos naturais.

Segundo o professor da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, Paulo Durval Branco, embora as empresas venham repetindo a palavra sustentabilidade como um mantra, são pouquíssimas as que fizeram mudanças efetivas em seus modelos de negócio. O desperdício de matérias-primas, o estímulo ao consumismo e a obsolescência programada (bens fabricados com data certa para serem substituídos ) ainda ditam as regras. "Mesmo nas companhias que são consideradas vanguarda em sustentabilidade, essas questões não estão sendo observadas. O paradigma vigente é crescer, conquistar mais consumidores, elevar o lucro do acionista."

Adaptado de Andrea Vialli (texto integral), publicado no Estado de São Paulo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Arte pelos poros

Entrar em contato com talento não dá!
A gente fica com vontade de cultivar nossos talentos também. Estou aqui sentado dialogando com meu prato de macarrão, digerindo o lançamento do livro Zero Um e a estréia do meu trabalho com Mel ontem no Pé Palito.
Ambos referência de arte para mim, fazem parte desse momento de me apoderar do que podem ser potenciais de expressão e descobrir pra mim mesmo quem eu sou.

Parte do projeto Cabaré do Verbo, nossa estréia como parte do núcleo de montagem da Cia Circular (que também apresentou um número de clown) foi muito bacana!
Para a apresentação, aproveitei na percussão coisas que aprendi com a bateria há algum tempo, e incorporei outros elementos para criar a percussão/sonoplastia da performance. Ao mesmo tempo, Mel declamou/interpretou com loucura o louvor de Rimbaud (ou seria o oposto?), brindando à vida, em um momento especial.
Fico com a felicidade nostálgica do momento tão vivo, e a gratidão de dividir o palco com tamanha generosidade artística.

Escrevo sobre o lançamento do livro no próximo post, junto de um tira-gosto do trabalho.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Lançamento do livro Zero Um

Sexta-feira na Palavraria, Livraria e Café, será lançado o livro do meu amigo, grande poeta e escritor, Guto Leite. Quem puder ir vai conferir um bate-papo muito legal, com certeza.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Bispo é como um pastor. Aquele mesmo, das ovelhas. Seu dever é conduzir o rebanho de fiéis a ele confiados.
Em 1554 o bispo Pero Sardinha foi comido pelos índios ao naufragar no litoral brasileiro. A consagrada metáfora católica de "comer o corpo do repersentante de Deus na terra" foi concretizada com êxito. Comer uma pessoa significava, para os índios, admiração, e a devoração uma tentativa de incorporar as qualidades do outro para si.
Veja bem, por outro lado, ser comido às vezes não é tão virtuoso assim. Um rebanho que não deseja ser, estar ou permanecer colônia, pode acabar por comer seu bispo, quer dizer, pastor. Oswald de Andrade tem mais a nos dizer sobre isso no Manifesto Antropofágico:

"O dia em que os aimorés comeram o bispo Sardinha deve constituir, para nós, a grande data. Data americana, está claro. Nós somos americanos; filhos do continente América; carne e inteligência a serviço da alma da gleba. O fim que reservamos a Pero Vaz de Sardinha tem uma dupla interpretação: era, a um tempo, a admiração nossa por ele (representante de um povo que se esforçara por derrubar aquele presente utópico, que foi dado ao homem ao nascer, e que se chama Felicidade) e a nossa vingança. Porque, que eles viessem aqui nos visitar, está bem, vá lá; mas que eles, hóspedes, nos quisessem impingir seus deuses, seus hábitos, sua língua... isso não! Devoramo-lo. Não tínhamos, de resto, nada mais a fazer."

domingo, 6 de junho de 2010

Deus e o mundo

Deus só fez o mundo porque sua mulher deixou. Numa tarde de domingo, como hoje, já sem sol e um tanto fria, Deus falou com sua mulher, uma Deusa.
- Querida, acho que vou fazer o mundo hoje. Prometo que não demoro.
- Quanto tempo você acha que vai levar?
- Uns 8 dias...
- Ai, não dá pra ser menos? Eu vou ficar sozinha 8 dias?!
- Tá bom, posso fazer em 7.
E deu no que deu.